Vamos falar de "Vidas Secas", do Graciliano Ramos. É forte o texto. Foi escrito em 1937. Conta a história de uma família retirante na seca do Nordeste. As imagens, os sofrimentos, os sentimentos dos poucos personagens do livro estão todos condicionados à miséria do sertão. Mostra um autor extremamente empenhando em traduzir para o público leitor (se hoje leitores são elite, imagine na década de 1940) o que ele julga ser um dos principais problemas do Brasil. Certamente, ele contribuiu para a interpretação do que significa desenvolmento equilibrado no Brasil nos moldes em que vemos hoje, e muitos dos pensadores das políticas públicas forjaram sua visão da seca nesse livro. Mais que um grande marco do nosso modernismo, é leitura obrigatória e atual para quem conduz os rumos do país.
Da mesma forma que o autor de O Velho e o Mar, Graciliano é muito descritivo. Suas palavras são como traços de um desenho, capazes de formar em nossa mente a imagem perfeita do cenário enfrentado. Transforma visões em sentimento e leva o leitor ao âmago dos acontecimentos narrados. De forte conteúdo social, numa época em que imperava o panfletismo (promoção de opiniões sobre os problemas sociais), dizem que ele foi até comedido. Quem lê não percebe esse comedimento, pois fica impressionado. Transporta o sentimento por dias após o fim do livro. Ganhou o prêmio William Faulkner (autor do O Som e a Fúria e nobel de literatura em 1949) em 1962.
Uma curiosidade sobre o livro: é um romance desmontável, isto é, seus capítulos podem ser lidos em ordem diferente de como foram postos no livro... Mas isso vocês já viram... Quem leu A Conspiração do Tempo, sabe que dá para mudar a ordem de seus capítulos...